Monday, March 10, 2014

Princesas

Meu mundo desabou. Tiraram meu chão e eu literalmente me afoguei em um rio de lágrimas. Alguém roubou todo o ar dos meus pulmões e meu coração tomou morfina, adormeceu, morreu por uns instantes e depois ressuscitou sabe-se lá com quantos choques. Minha boca secou, os olhos eram dois rios cheios de entulhos descendo loucamente a cascata mais longa e inescrupulosa de toda minha vida. Não sei muito sobre rios e mares, meu signo é Terra e me sinto mais confortável com os dois pés firmes no chão. Chão que nesse momento eu não sabia onde tinha ido parar, então restaram-me as ondas dolorosas de um mar que não era de rosas. Meu nariz sentia um cheiro doce e familiar se afastando cada vez mais. Eu ia ficando cada vez mais longe de casa, dos braços que um dia me prometeram um lar. Tão longe dos olhos de ressaca que hoje fazem jus ao nome. É como nesses sonhos malucos que temos onde o chão encolhe e você fica suspenso no ar, sem ar. Como naqueles pesadelos em que você corre, corre, mas nunca consegue alcançar. Dizem que o final é sempre feliz e enquanto não é, não é o final. Mas, o pior de tudo é passar pelos arredores até chegar ao castelo e fazer-se princesa. O pior é ter que aguentar os cavalos lentos e os rios sem pontos para atravessar. Um dia, um mês, um ano, tantos outros, passando diante de seus olhos como se fossem figurantes de uma cena de cinema. O anseio nem é mais pelo príncipe no cavalo branco, essa história ficou ultrapassada com Branca de Neve. Qualquer coisa que faça parar de doer deve ser o bastante. Qualquer distração, uma música, um filme, uma bebida ou um cigarro. Mas em todas essas coisas existe uma pequena lembrança enclausurada, no acorde agudo, no beijo na chuva, no 33% de álcool ou na fumaça em forma de bolinhas irregulares. Talvez a história da minha vida seja essa, escrita enquanto tento chegar ao castelo. Quem sabe um dia eu me sente em um trono vermelho e fofinho com uma coroa na cabeça e um sorriso nos lábios. Ou, quem sabe eu me perca em um bosque e seja comida pelo lobo mau. Por enquanto vou andando sem chão, sem eira nem beira.

Sunday, March 09, 2014

Qual o sentido

Quando se tem 20 e poucos anos a vida pode ser mais confusa do que se parece. Posso parecer uma velha saudosista falando mas, quem me dera ter meus 16 anos outra vez. E queimaria minha língua caso praguejasse ter 20 e poucos tão cedo. Tantas preocupações e ao mesmo tempo nenhuma. Tanta coisa pra buscar e ao mesmo tempo nada para encontrar. Tanto coisa para descobrir e ao mesmo tempo nada para enfatizar. Crises existenciais deveriam ser proibidas antes dos 30. Nada contra, só um manifesto saudável. Coisa maldita essa chamada insônia. Nunca tinha experimentado. E essa dor no peito que parece apertar feito um triturador e não há Levitra que resolva. Tem outra coisa chamado choro repentino. Vem sabe-se lá de onde para atracar na goela no momento menos oportuno. Carnavais eram tão divertidos. Ficar quase surdo em baladas apinhadas de gente era o ódoborogodó. Hoje em dia em qualquer uma das situações me sinto como um peixe fora d'água e pior enterrado vivo. A cabeça vai de A a Z e de repente para no meio do alfabeto, na letra M ou N, eu não sei direito. Fica sempre vacilando entre um lado e outro, não sai de cima do muro. Às vezes quer toddynho, em outras noites implora por um Martini e assim a cabeça vai dando nós tão bem apertados que fica difícil desamarrar. Dizem que é a melhor época de nossas vidas e se minha cabeça não fosse tão dura quem sabe eu pudesse aproveitar melhor. Bom, quem sabe daqui há alguns anos quando eu tiver 30 me encontre em alguma crise muito pior. Quem sabe a vida seja um emaranhado de crises existenciais tentando nos fazer entender o sentido de tudo isso.

Parei de mentir

Há algum tempo parei de mentir sobre meus sentimentos. Não parei de sentir, parei de mentir, comecei a omitir. Por mais confuso que isso tudo pareça tem um quê de lucidez, lá no fundo, como aquele delicioso último gole da sua bebida favorita em uma noite vazia e extraordinária. Quem disse que não lembrar quer dizer esquecer ou vice-versa? Eu parei de mentir para mim mesma quando o chuveiro aqueceu, a lua escureceu e os meteoros já não faziam o menor sentido. Não para mim. Prefiro estrelas, pequenos gases mortos a tanto tempo, mas sempre trazendo luz e inspiração a românticos apaixonados. Em todo lugar que olho uma ponta do iceberg inclina para direita, o sorriso fica torto, a vontade remexer as orelhas se ouriça, o jeito despreocupada me vem a cabeça como se fosse a coisa certa a fazer. Ensinei meu rosto a mentir. Proibi meus olhos de brilharem, meus lábios de sorrirem, meu nariz de cheirar e meus ouvidos de lembrarem. Quem disse que o silêncio não traz um emaranhado de lembranças excruciantes prontas para serem doadas com os brinquedos velhos? Foi isso que eu fiz. Separei todos aqueles sentimentos junto com as roupas que não serviam mais. Distribuí tudo por aí, um pouquinho em cada canto. É, que é para quando eu sair por aí poder me encantar em cada esquina, beco ou saída por mais suja, amontoada ou blasé que seja. Não é porque eu parei de mentir que as flores com sabor de chocolate tenham murchado. Não é porque uma porta se fechou que as janelas se abrem intempestivamente. Isso requer tempo, cuidado e muita água para inundar a solidão e encharcar o coração. Parar de mentir não é parar de sentir. Esquecer não é não lembrar!

Tuesday, February 25, 2014

Can't take my eyes off you

Eu tinha um sonho. Quando casasse cantaria a música Can't take my eyes off you para meu marido. Mas, ele me deixou. Como se esquecesse um guarda-chuva na padaria da esquina. E eu fiquei lá com o microfone na mão, olhando para todos com cara de desafinada. Essa música me parecia a ideal quando a escolhi em meus planos. You're just too good to be true. Ele era tudo aquilo que eu sempre quis e nunca soube. Uma coisa que acontece sem que a gente nunca tenha esperado e quando acontece é única e especial. Como um emprego que você nunca sonhou ter e a chance cai do céu. Como aquela combinação de doces que você nunca imaginou que ficariam bem juntos. Ele era bom demais pra ser verdade. E quando a gente se olhava o mundo parava. Mas, não dessa forma romântica e piegas. A gente podia se olhar por horas. A gente se olhava na fila do pão, na escada rolante, no meio do filme, no meio da rua, na frente do colégio. A gente não só se olhava, a gente se via, se sentia, se traduzia. Os nossos mundos realmente paravam. Click. Se eu pudesse voltar no tempo e ao menos saber o que houve de errado, quando as coisas descarrilharam, se foi quando o jornal chegou atrasado ou quando acabou o suco de uva. Cá estou eu, em um palco, com centenas de pessoas que eu não conheço me olhando como se me indagassem. Cá estou eu, sem pulsação, sem coração, com um nó tão grande na garganta que eu poderia entrar para o Guiness. Imprevistos acontecem. A chuva pode ter parado depois que você comprou o pão. Mas, quando voltar para pegar o guarda-chuva pode ser tarde, outra pessoa pode ter precisado e pegado.

Sem motivo

Quando você sofre a vida para por um instante, ou dois, três. Tudo depende do buraco que foi aberto. E às vezes a gente não se da conta de que o mundo não para. O chão continua lá, mesmo que você não sinta. A garganta continua engolindo, mesmo que o nó formado dentro dela faça você achar que não. E quando você sofre por algo sem uma explicação decente é ainda pior. Sabe por que? Porque você de fato não sabe o porquê de estar sofrendo. E aí você chora, mas nem sabe por qual motivo. Você não tem um alvo, uma ferida para deixar sangrar de vez até que estanque sozinha. Aí você vaga por aí, entre um buraco e outro, tentando encontrar o premiado, aquele que deve ser velado. Uma perda é aceitável. Uma dor a ser sentida também. Agora, uma perda e uma dor sem um ponto final não deveriam ser dignos de sepultura em nossos corações. Essas coisas ocupam lugares sagrados. Lugares especialmente guardados para quando tivermos motivos reais para enterrar. Mas, não é por isso que o chão se refaz como em um passe de mágica. As xícaras continuam quebradas no chão da cozinha e o café fica sempre amargo. Até que você tome coragem e vá pedir uma xícara de açúcar a algum vizinho novo. Adoce até parar de amargar.

She takes her clothes off

Tem músicas que nos fazem perder o fôlego, outras que nos levam a lugares tão escondidos em nossa mente que chegam a assustar. Desde criança sempre sonhei em ser independente, financeira, emocional e psicologicamente. O mundo nos faz ver que estamos errados em ter certos sonhos. Mas, a liberdade de sonhar que certas músicas nos dão me fazem invejar os músicos. Queria poder sair por aí dedilhando filosofias a serem seguidas. 'Ela conseguiu outra fantasia de, ela mora no apartamento número 23'. Graças a essas pequenas frases de esperança, eu, sempre quis morar no número 23. Mas, tudo que consegui foi um 33 meio tumultuado. Sempre desejei no meu coração ser livre ao ponto de não me importar com as coisas que acontecem ao meu redor. Como se eu fosse uma bolha, em um redoma de vidro blindado fumê. Porque também sempre vi certo charme em ser fumê. Blasé. Acho que se tivesse que escolher uma palavra seria essa. Blasé. Tão chique e ao mesmo tempo tão cheia de significados indecifráveis e equivocados. Aquela pessoa parada perto da porta fumando parece tão confiante e cheia de si que nem mesmo um caminhão em alta velocidade seria capaz de atingi-la. Mas, não. Bastaria um pequeno carrinho de feira para desmoroná-la. Pessoas passam impressões que nem sempre são expressões. Eu explico. A moça com olhar de peixe morto pode ser mais fatal do que você imagina. Aquele colega alheio as explicações do professor pode ser muito mais inteligente do que você pensa. Aquele outro perto da porta fumando com pose de rocha, pode ser a única gota de água doce no mar. Algumas vezes basta um simples esbarrão para que as coisas entrem nos eixos, encontrem os trilhos e sigam o trem da vida. Mas eu, bom, eu continuo me inebriando dessa falsa liberdade que as músicas passam. E sabe do que mais? Everybody wants to be the carnival king ou queen.
E se eu der sorte: Everybody's gonna wanna dance with me.



Um amor proibido

A vida é mesmo louca. Quando se tem o que se quer o mundo parece girar diferente e o chocolate tão saboroso dá repulsa. Lembro como se fosse hoje minha primeira "traição". Não foi uma traição consumada, mas como dizem que só de pensar a traição já existe, cá estamos em uma emboscada. A lebre e a tartaruga, ou nessa caso, duas tartarugas. Ele era do tipo cabelo pra frente, roupas descoladas demais para garotos daquela idade e uma habilidade para tirar sorrisos de mim que eu nunca encontrei em mais ninguém. Ele tocava violão e jogava futebol. Os cabelos voavam a medida que ele corria. As garotas se aproximavam a medida que as melodias ganhavam forma. Eu que não era fã de rock'n roll na época, me peguei ouvindo Skid Row adoidada, querendo decifrar as entrelinhas daquela música que ele me ofereceu. Tantos encontros e desencontros em poucas horas. Tantas oportunidades desperdiçadas, lançadas no calabouço que são as esperanças. Bendita Internet que está aí desde sempre nos fazendo reafirmar laços e conquistar corações de cidadãos espalhados por aí. Meses sem aquele cheiro doce e suave. Mesmo na era digital, a beleza estava nas cartas cheias de desenhos e declarações enviadas por carteiros alheios ao amor. Certo dia quando a chuva parou de cair o coração falou mais alto, as cordas desataram os nós e a vontade diminuiu os quilômetros que distanciava corações esperançosos e apaixonados pelo impossível. O proibido tem essa mania de nos fazer querer entrar, escancarar as verdades e esconder os mitos debaixo do tapete. É essa ideia de sonhos roubados, coagidos por um mundo acelerado e desigual que nos faz seguir em frente em breves instantes de loucura. Cá estamos, em pleno século 21, andando de mãos dadas pelas ruas da cidade, tão felizes quanto duas crianças que acabaram de acordar no Natal. A beleza de tudo isso está
 nas entrelinhas daquela música e no juramento exagerado de que 'você nunca estará sozinha'.

Only One

Era Agosto de 2005. Tudo que eu queria era um motivo para falar com ele. A desculpa de entrar e sair 'n' vezes do MSN era a falha na conexão. O mundo parava por um breve instante quando quatro pequenas letras piscavam repetidas vezes no meu monitor 15 polegadas. Era inverno, o frio consumia meus dedos, a coberta enrolada no corpo e as luvas com dedos cortados não davam conta. Mas, o calor que aquela sensação provocava no meu coração aquecia todo o resto. E quem nunca viveu um grande amor que atire a primeira pedra. A vida fica quentinha, com sabor de bolo feito na hora e cheirinho de café moído. Only One, mais brega impossível. Os planos, os mais tolos do universo. Tudo que eu tinha era vontade de gritar a plenos pulmões que ele era o único. O único capaz de me fazer pular a janela de casa, torcer o tornozelo só para invadir um quintal e ficar sob as estrelas em um frio de 4º. A vida é tão intensa quando se tem 15 anos. O mundo parece tão cruel, o timing das coisas parece acelerado demais. As mãos aquecidas dentro do casaco, o travesseiro com seu cheiro na volta do colégio, o chicletes que lembravam seu beijo, as mil mensagens enquanto a professora falava sobre Aristóteles e Platão, minhas faltas nas aulas de Educação Física, o gosto bom que a adolescência se encarrega de deixar sob amores que um dia foram únicos. O único que deixou uma marca de esperança dentro do meu coração. Um rombo tão grande que os assaltantes do Banco Central sentiriam inveja. Uma felicidade catalogada, com data de validade, uma bomba pronta para explodir em mil pedacinhos todos os sonhos e planos. Felizmente, os cheiros, músicas e chicletes me fazem recordar tudo que um dia foi bom, foi único. The one, the only one, como costumávamos chamar. Um amor recheado de promessas que não poderiam ser cumpridas. Mas, hoje tiro minhas conclusões e uma delas é que único é alguém que tira de nós a mais verdadeira pureza, inocência e vontade de viver. E a maior prova disso é que esse amor reciclado me fez renovar minha vontade de viver e buscar cada vez mais em outros cantos, lugares e amores.
Ela era alegre. Dessas alegrias que só se vê em comercial de margarina. Mas, em casa no escuro do quarto chorava feito um bebê. Ela era magia, se entregava na pista de dança, esnobava todas a sua volta. Mas, no calor do cobertor rezava por alguém que a completasse. Ela dava conselhos como ninguém, amparava, secava as lágrimas. Mas, no fundo se despedaçava com a história de um amor. Ela passava confiança, fazia carão e usava batom vermelho. Mas, só queria alguém que fizesse do sorriso seu melhor acessório. Ela era independente, pagava suas contas, comprava suas roupas, usava fenda sem medo de ser feliz. Mas, queria alguém que a elogiasse antes de sair. Ela falava com o corpo, gesticulava e era sempre altiva. Mas, a verdade é que só queria alguém que segurasse a sua mão. Ela era sonhadora, idealizadora e perfeccionista. Mas, só queria um sapo para chamar de príncipe. Um dia, na varanda de casa, entre um piscar de olhos e um bocejo se viu refletida no vidro da janela. Não há batom vermelho que explicite a verdadeira autoconfiança. Não há salto alto que erga o ego. Não há figurino que seja capaz de impor tanto respeito quanto o brilho nos olhos quando sentimos amor. Amor por nossos corações, nossos princípios, vontades e ideais. Estampados na menina Íris de seus olhos verdes cor do mar estavam a coragem e amor próprio não encontrados em noitadas badaladas, caras com cantadas baratas e cigarros vermelhos.

Brilho eterno de uma mente sem lembranças

Nós éramos amigas desde que eu me conheço por pedaço de gente. Éramos unha e carne, sol e chuva, verão e inverno, dessas coisas que quando misturadas dão certo. Todos os nossos medos de criança foram passados sob a mesma cabana de lençóis e histórias de terror. Todos os nossos ressentimentos pré-adolescentes foram passados a custa de muita Avril Lavigne, brigadeiro e noite de longos planos maquiavélicos. Ela era a única com quem eu não me irritava na TPM. Confissões durante toda madrugada, revezando de hora em hora o computador em uma tosca internet discada. Choros, medos, alegrias, sorrisos, muita besteira e maloqueirice. Os primeiros porres, primeiros amores, primeiras dores, primeiras vezes, todas elas nós passamos juntas. Os primeiros anos da faculdade em competição eterna de bubble shooter. Uma das nossas marcas registradas era a brincadeira que jogávamos antes de dormir, uma música na sequência da outra com a última palavra. Dias amanhecidos em colchões de pouca espuma, em ruas de neblina, em olhos já com pouco retina. Tudo embaralhado, mesclado em amizade, com sabor de eternidade. Mas, sempre tem um mas. O nosso foi um pouco bagunçado, atordoado. As coisas amanheceram esquisitas, o café esfriou, o pão murchou e o arco-íris escureceu. No céu da vida nunca queremos que nossas estrelas parem de brilhar, mas sem mais nem menos, sem um motivo torpe, uma morte, uma traição as coisas tomaram outro rumo em marcha ao sul. Tudo ficou vago, os passos escolheram outros caminhos e como Clementine a mente apagou por um momento tudo aquilo que ficou registrado feito tatuagens bregas combinando. Mesmo assim tem coisas que o tempo não apaga, a gente erra, se esbarra, se debate em muros, paredes, cercas e quando vê está em pedaços. Cada um de nossos pedaços espalhados por aí como um quebra-cabeça sem molde. Felizmente ou infelizmente, Clementine é fruto de nossa imaginação e seremos sempre um brilho eterno de uma mente sem lembranças.

Thursday, February 06, 2014

Comer sozinho

Um dos maiores questionamentos internos do meu estômago é: Por que as pessoas odeiam comer sozinhas? Por que? É estranho ver alguém comendo sozinho, é inevitável não sentir compaixão por aqueles que sentam-se sozinhos em praças de alimentação lotadas de gente mastigando, triturando um bolinho ou uma panqueca. Por que é tão desagradável se sentar sozinho, quando todos parecem ter um par, um trio ou quarteto? Passa a sensação de solidão? Deve passar. Uma vez quis provar a mim mesma que essa história de comer sozinho, principalmente almoçar durante o fim de semana em um restaurante badalado é balela e que as pessoas não ficariam com pena de mim. Lá fui eu, tomei meu banho, me arrumei, emperequetei um pouco, perfume, creme e pulseiras. Do brinco eu abri mão. Era um sábado de sol e eu escolhi um dos meus restaurantes favoritos, onde tem polenta frita a vontade e muito macarrão na manteiga. Nome na lista da espera. Isadora. Quantas pessoas? Só eu. Ah, ok. (Cara de pena). Isadora, sua mesa, fim do corredor a direita. Obrigada. Já posso servir, ou está esperando outra pessoa? Não, sou só eu. Ah, ok. (Cara de pena). Mas, que mal há em eu querer saborear uma deliciosa lasanha ao sugo em minha própria companhia? O gosto seria diferente se outra pessoa estivesse sentada a minha frente? Alguma mudança nas papilas gustativas que ainda não me avisaram? Ok. O problema aqui é que muita gente pensa que você está sozinho porque foi abandonado, ninguém quis vir contigo, você foi deixado de lado. Mas, a questão é que eu quis vir sozinha, por opção, não chamei ninguém, gosto de minha companhia e sei aproveitá-la. Na verdade, sou eu quem deveria olhá-los com cara de pena por tamanha solidão que sentem em suas próprias companhias. Pobres daqueles que não conseguem aproveitar um momento tão sagrado e gostoso como o da refeição para fazê-lo em sua própria companhia e só. Ok, talvez garfo, faca e uma Coca-Cola sejam bem-vindos. Não sintam pena de mim. Eu realmente gosto de me sentar sozinha e apreciar uma boa pizza e uma cerveja gelada depois de um dia exaustivo de gente. Eu gosto de ficar com meus botões, mesmo que eles às vezes falem coisas sem sentido. Façam isso. Tenham essa experiência. Coloquem sua melhor roupa e trotem até seu restaurante favorito. Desafiem os garçons. Mesa para 1, por favor!

Mudanças

Algumas vezes a vida nos propõe mudanças. Não dessas escancaradas, que saltam aos olhos vidrados do cuco. Mas dessas que soam de hora em hora, disfarçadas pelas badaladas. Você as vezes nem as percebe e quando percebe já está com o prazo de validade praticamente no fim. Por que não dar ouvidos ao que o silêncio quer te dizer? São tantos sinais, tantas chacoalhadas tentando te tirar da zona de conforto que você fica tentado a pensar que isso é uma tempestade de aproximando. E pode até ser, mas depois da tempestade não vem a bonança? Clichê estúpido, clichê verídico. Não se pode ter um verão sem tempestades, o calor seria insuportável. Ela vem para mudar as coisas de lugar, bagunçar. É como quando arrumamos o guarda-roupa. Da uma preguiça danada de começar. Empilhar tudo, juntar o que não quer mais, o que ainda quer, arrumar um lugar novo para cada pilha. Mas, no fim a sensação de alívio, dever cumprido e de encontrar aquele macacão que não usava há anos recompensa, não é? Quem sabe a vida seja feita um guarda-roupa, esperando ser posto a baixo de vez em quando, para que possamos tirar tudo que não usamos mais, organizar as saias, doar os vestidos que já estão muito curtos e guardar um ou outro moletom que passou por um belo momento. É assim que deve ser. Outras pessoas estão por aí precisando de coisas que você já não precisa mais. De uma chance a elas, mas principalmente, dê uma chance a você e vá comprar roupas novas!

Tuesday, December 17, 2013

Embarcando

Toda vez que eu viajo sozinha de ônibus eu choro. Não sei porque, é inevitável, por mais feliz que eu esteja, por mais presentes que eu tenha ganho, por mais bocas que eu tenha beijado, por mais vodkas que eu tenha bebido, eu choro, assim, como quem vai tomar água e acha isso triste. Que banal. Quando você viaja de ônibus tudo no horizonte é só estrada e céu e natureza cheia de verdes e árvores. Talvez seja o efeito que o céu tem sobre mim ou talvez seja a extrema solidão que eu sinto ao embarcar para qualquer destino. Dentro de um ônibus, na estrada, vulnerável, a mercê de qualquer coisa que o destino tenha a te propor. É ali, sentada na poltrona 19, com os fones de ouvido e o iPod no último volume entoando uma melodia melancólica que eu me vejo sem saídas. Não tenho pra onde correr, me vejo tão pequena diante de um mundo tão grande. Não sou nada, sou um ponto minúsculo no universo, pronta para esfarelar como grão de areia a qualquer momento. Tanta gente se acha especial, experimente sentar em um ônibus lotado de desconhecidos, todos entretidos em suas sonecas, palavras cruzadas e olhares vagos pela janela. Eles nem notam você. Você é só mais um em toda essa imensidão. Agora experimente olhar para fora, o que você vê? Vê a imensidão? Vê as cores do céu se transformando conforme o ônibus roda? Vê a pequinês da vida diante de tudo isso? Nas minhas viagens faço conspirações, planejo troca de ideias, de objetivos, de rumo, mas isso acaba quando firmo os pés onde chamo de lar. Talvez eu me sinta especial aqui, com as pessoas que conheço e gosto e que gostam de mim. Talvez eu não queira mudar meus ideais, mas é bom saber que se possível tenho chances, tenho horizontes e um céu bem grande esperando para ser explorado e notado. Olhem para cima, às vezes perdemos espetáculos tão nítidos, tão constantes que nem nos damos conta. Viagem mais, se enclausure por algumas horas, veja o que a solidão pode fazer com você. Não é de todo ruim, você se pensa e se repensa, se olha por dentro e vê que algumas coisas existem do lado de fora e do lado de dentro. Muita gente não suporta a própria companhia, faça a prova, algumas horas e uns quilômetros com você vão cair bem. Afinal, a vida lá fora é tão imensa e cheia de vontades!

Tuesday, August 27, 2013

Quando acaba o efeito?

Até quando o interesse é real? Até quando aquele vinco no queixo dele é realmente atraente? Até onde vai a paixão e onde começa a cegueira? Quando estamos absortos em alguém qualquer coisa que diga ou faça torna-se o maior rebuliço, a coisa mais linda, engraçada e divertida ever. Mas, quando esse efeito morfina passa as coisas ficam mais reais e aí da medo. Mas essa nem é a questão, e sim, quando esse efeito latente passa? Durante um banho demorado e esclarecedor? No meio da sala de aula entre um suspiro e outro do colega apaixonado ao lado? Ou será depois do gol do Neymar pela seleção em algum jogo importante que valha algum título? Nando Reis já se perguntou isso "Quando foi que eu deixei de te amar? quando a luz do poste não acendeu, quando a sorte não mais soube ganhar?" Alguns olham ao redor, levantam pedras, puxam tapetes em busca de explicações, mas elas estão ali pra quem quiser ver, estampadas em uma flor em uma quadro ou porta retrato qualquer. Acaba como acaba o açucar, como vira vinagre o vinho, como o queijo azeda e o chocolate adoça. Sem mais nem menos, não espera um sábado a noite para vir a cavalo, não espera a meia noite para virar abóbora e muito menos você decidir o sapato certo para a ocasião. A verdade é que essas coisas acontecem enquanto você anda pela rua, mascando chicletes sabor tutti-frutti com fones de ouvido estourando Black Eye Keys nos tímpanos e de repente eles estralam e te trazer de volta a realidade. O vinco no queixo é um puta dum defeito pra quem acorda sem anestesia, aquela falha na sobrancelha irrita e as palavras doces azedaram antes do prazo de validade. O por que eu sei lá, mas acontece quando os cabelos estão despenteados e você não espera nada de um dia chuvoso. É como pegar uma estrada desconhecida, você não sabe quais serão os percursos da viagem, mas sabe que vai chegar a um fim. Talvez seja o cheiro que parou de fazer efeito, o beijo que não provoca mais calafrios ou talvez seja você em busca de algo a mais etílico, mais forte e com efeitos colaterais mais insuportáveis!

Wednesday, August 07, 2013

Me ganhou

Tanta coisa que me encanta e nem precisa muito. Um sorriso meio torto na hora do almoço. Um esbarrão em meio a um corredor vazio. Um olhar mais demorado sobre meus olhos. Um abraço desajeito, mas apertado. Um pouco de verdade na hora de dizer Olá. Um beijo na testa e um afago na nuca. Um cafuné, um carinho inesperado ou até um esperado. São tantas coisas que me ganham, são tantas. Um dia de sol com cheiro de chuva, eu e você em meio a um gramado, imitando um piquenique, sem cesta, sem sanduíches ou ponches ou maçãs. Só eu e você e uma bicicleta velha, enferrujada. Pois é, as coisas enferrujam, e até nisso há beleza. A beleza está em coisas novas ou velhas, pequenas ou grandes, mas eu gosto mesmo é da beleza que encontro no arco-íris da menina de seus olhos. Cheio de vida, cheio de ferida, tão cru, tão real. Daria a mão a palmatória para que pudessem sentir o que sinto quando olho para eles cheios de intensidade, de verdade, querendo me dizer tudo aquilo que já captei. Daria um dedo se todos no mundo sentissem uma única vez na vida o formigamento que sinto quando toca em mim, mesmo que sem querer, mesmo que pra provocar. Minhas mãos adormecem, mas ao mesmo tempo ficam mil vezes mais sensitivas. Sabe, já quis entender, já até procurei entender, alguma explicação em alguma música, um livro, uma prosa, um verso, mas dei com os burros n'água. TU-TU-TU. Nada. Nenhum explicação, um breve capítulo sobre o assunto. Mas dizem que essas coisas não se entendem mesmo, na verdade a gente nem deve tentar, senão perde a mágica, o encanto por detrás da pele e da química. Que coisa estranha antes te ver sem te notar. Amores a segundas, terceiras ou quartas vistas são ainda mais instigantes, mais animadores e reconfortantes. Te vi centenas, quem sabe milhares de vezes e foram preciso milhões de encontros para que meu coração balançasse, para que a sirene apitasse e fosse dada a largada. Não fosse como fosse não seria tão especial, tão letal, tão sazonal. Não precisou muito para me encantar, pra me ganhar, foi só o tempo dizer!

Rir

Já parou para pensar nas pessoas que fazem rir? Aquelas que sem esforço algum acabam sempre te arrancando um sorriso tímido em meio a suas rabugices? Não? Engraçado, sempre penso nelas. Acho que é um dom e se não for deve ser coisa da alma. Essa coisa de chegar e alegrar com a presença, com o bom ou mau humor. Porque, parem para pensar, uma pessoa que te faz rir, as vezes está de mau humor, mas nem por isso ela arranca menos sorrisos de quem está ao redor. Audrey não poderia ter descrito melhor meu modo de pensar sobre isso "eu amo as pessoas que me fazem rir. Sinceramente, acho que é a coisa que eu mais gosto, rir. Cura uma infinidade de males. É provavelmente a coisa mais importante em uma pessoa". Concordo em número, gênero, grau e sorrisos. Tem coisa melhor por aí? E pra melhorar: é de graça. Cura as feridas, as impotências, os medos, os anseios, uma infinidade de coisas que você nem sabia que tinham cura. Porque rir é externar tudo de ruim que tem dentro de ti, é pegar uma pá juntar toda a sujeira e jogar na lixeira. Rir de si mesmo, dos outros, de coisas e sonhos. Vida longa as pessoas que espalham sorrisos, vida longa as pessoas do riso frouxo, riso gostoso e sem compromisso. Saudações aqueles que gargalham em meio a um pigarro, a um lugar infortúnio ou uma praça cheia de gente esquisita. Parabéns a todos aqueles que conseguem, porque rir é sim um dom. Tem quem ri, mas não acha graça. A graça vem aos poucos, vem com o tempo, você tem que construí-la, moldá-la, torná-la sólida para que ela faça sentido para você e depois atinja os outros, senão vira um grande purê de batatas mole demais, sem consistência. Besteira quem pensa que pra rir tem hora, besteira das grandes. Rir não é só se mostrar feliz, rir é estar nervoso, a beira de um ataque de nervos, estar triste e não conseguir chorar, rir é estar desesperado, com o coração saltando da boca enquanto se está a 1000 pés de altura esperando ser jogado de um avião com um paraquedas das costas. Rir é essa coisa que vem do estômago, que machuca a garganta e explode pelas cordas vocais. Estranho quem recrimina gargalhada, quem não se permite rir e achar graça na risada dos outros. Rir é o melhor remédio, cura a enfermidade do mais moribundo dos enfermos. Portanto ria, quando tiver vontade, em qualquer canto do mundo!