Monday, March 10, 2014

Princesas

Meu mundo desabou. Tiraram meu chão e eu literalmente me afoguei em um rio de lágrimas. Alguém roubou todo o ar dos meus pulmões e meu coração tomou morfina, adormeceu, morreu por uns instantes e depois ressuscitou sabe-se lá com quantos choques. Minha boca secou, os olhos eram dois rios cheios de entulhos descendo loucamente a cascata mais longa e inescrupulosa de toda minha vida. Não sei muito sobre rios e mares, meu signo é Terra e me sinto mais confortável com os dois pés firmes no chão. Chão que nesse momento eu não sabia onde tinha ido parar, então restaram-me as ondas dolorosas de um mar que não era de rosas. Meu nariz sentia um cheiro doce e familiar se afastando cada vez mais. Eu ia ficando cada vez mais longe de casa, dos braços que um dia me prometeram um lar. Tão longe dos olhos de ressaca que hoje fazem jus ao nome. É como nesses sonhos malucos que temos onde o chão encolhe e você fica suspenso no ar, sem ar. Como naqueles pesadelos em que você corre, corre, mas nunca consegue alcançar. Dizem que o final é sempre feliz e enquanto não é, não é o final. Mas, o pior de tudo é passar pelos arredores até chegar ao castelo e fazer-se princesa. O pior é ter que aguentar os cavalos lentos e os rios sem pontos para atravessar. Um dia, um mês, um ano, tantos outros, passando diante de seus olhos como se fossem figurantes de uma cena de cinema. O anseio nem é mais pelo príncipe no cavalo branco, essa história ficou ultrapassada com Branca de Neve. Qualquer coisa que faça parar de doer deve ser o bastante. Qualquer distração, uma música, um filme, uma bebida ou um cigarro. Mas em todas essas coisas existe uma pequena lembrança enclausurada, no acorde agudo, no beijo na chuva, no 33% de álcool ou na fumaça em forma de bolinhas irregulares. Talvez a história da minha vida seja essa, escrita enquanto tento chegar ao castelo. Quem sabe um dia eu me sente em um trono vermelho e fofinho com uma coroa na cabeça e um sorriso nos lábios. Ou, quem sabe eu me perca em um bosque e seja comida pelo lobo mau. Por enquanto vou andando sem chão, sem eira nem beira.

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