Tuesday, February 25, 2014

Brilho eterno de uma mente sem lembranças

Nós éramos amigas desde que eu me conheço por pedaço de gente. Éramos unha e carne, sol e chuva, verão e inverno, dessas coisas que quando misturadas dão certo. Todos os nossos medos de criança foram passados sob a mesma cabana de lençóis e histórias de terror. Todos os nossos ressentimentos pré-adolescentes foram passados a custa de muita Avril Lavigne, brigadeiro e noite de longos planos maquiavélicos. Ela era a única com quem eu não me irritava na TPM. Confissões durante toda madrugada, revezando de hora em hora o computador em uma tosca internet discada. Choros, medos, alegrias, sorrisos, muita besteira e maloqueirice. Os primeiros porres, primeiros amores, primeiras dores, primeiras vezes, todas elas nós passamos juntas. Os primeiros anos da faculdade em competição eterna de bubble shooter. Uma das nossas marcas registradas era a brincadeira que jogávamos antes de dormir, uma música na sequência da outra com a última palavra. Dias amanhecidos em colchões de pouca espuma, em ruas de neblina, em olhos já com pouco retina. Tudo embaralhado, mesclado em amizade, com sabor de eternidade. Mas, sempre tem um mas. O nosso foi um pouco bagunçado, atordoado. As coisas amanheceram esquisitas, o café esfriou, o pão murchou e o arco-íris escureceu. No céu da vida nunca queremos que nossas estrelas parem de brilhar, mas sem mais nem menos, sem um motivo torpe, uma morte, uma traição as coisas tomaram outro rumo em marcha ao sul. Tudo ficou vago, os passos escolheram outros caminhos e como Clementine a mente apagou por um momento tudo aquilo que ficou registrado feito tatuagens bregas combinando. Mesmo assim tem coisas que o tempo não apaga, a gente erra, se esbarra, se debate em muros, paredes, cercas e quando vê está em pedaços. Cada um de nossos pedaços espalhados por aí como um quebra-cabeça sem molde. Felizmente ou infelizmente, Clementine é fruto de nossa imaginação e seremos sempre um brilho eterno de uma mente sem lembranças.

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