São em horas inusitadas - quando você perde o ônibus, o sorvete escorrega da casquinha - que vem a luz, no fim do túnel ou não, isso depende. Às vezes tarde demais, outras na medida certa, como quando coloca aquele sapato e se sente a cinderela. Você para, pensa e sorri. É, sorri. Porque não há método melhor pra perceber o que te faz bem, do que um sorriso em meio ao caos urbano. Essa história de que tragédias tem que acontecer, que você tem que perder pra notar que era seu brinco favorito, é balela. Nada disso é verdade, a gente quer acreditar que seja, mas a única verdade nisso tudo é que as pessoas não se dão conta de que sorriem, se ao menos tivessem um espelho à sua frente no momento em que isso acontece, poupariam o drama e os deixaram para os filmes. E onde eu entro nisso tudo? Eu não entro, não caibo, calço 38 e o último par do estoque é 35. Passou longe, na outra esquina e meio que correndo. Eu que sempre fui das sérias, mais parecia uma daquelas gavetas de meias - sempre abertas, as que você por pressa quase sempre esquece de fechar - eu me esquecia aberta, mas não por pressa. Eu sorria em meio aos corredores e não tinha medo do que isso poderia parecer, na verdade eu esquecia de ter medo, era só dentes. Foi quando de repente parei de sorrir e as pessoas me perguntavam se havia algo em meus dentes, se eu os tinha quebrado ou sujado, mas era só o sol se pondo, indo embora e a escuridão se instalando. Me lembro como se fosse ontem, eram 21:30!
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