Tem dias que você é tão você que sente medo. Entre 365 dias, sempre tem um, quem sabe dois em que você para e se repara. O sorriso vai pra direita, os olhos são mais pesados, o nariz já não vai tão além do cheiro do tabaco, as orelhas são macias e viraram seu hobby favorito de final de semana. Você anda mais pra lá do que pra cá, anda torto, sem linhas, tropeça, vai do jeito que dá. Na semana passada deixou a casa se amontoar, não consegue encontrar a resposta embaixo de toda aquela poeira. Encontra o espelho e numa conversa longa ele lhe diz: "Os outros te vêem assim", um tapa na cara, sete anos de azar. Mas poxa, nunca acreditei em superstições, quem sabe deva começar a acreditar e mudar minha imagem no espelho no teto. Sou tão fechada que acabo transparecendo o que sou. Estranho, mas é assim que a vida segue e as pessoas lá por uma esquina ou outra me dizem: "Você quer ser muito forte", e é sempre aí que a ficha caí e eu nunca estou pronta pra escutar aquela voz do outro lado da linha. "Alô? Alô?", fico muda, fico surda, fico cega e esfarelo. Não é que eu queira parecer blasé, não é que eu queira não chorar, mas evito, modifico, sacrifico. Tem quem veja por entre parênteses, as aspas que seguram o silêncio, o choro, o riso, o bem e o mal, o bom e o mau.
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