Nesse período febril, um dia o telefone me acordou de madrugada.
- Ainda está apaixonado por mim?
A mesma voz, o mesmo tom zombeteiro e risonho de antigamente, e, no fundo, aquele lavio do sotaque limenho que ela nunca perdera completamente.
- Devo estar, menina má - respondi, acordando de vez. - Senão, como explicar por quê, desde que soube que você está em Tóquio, fico batendo em todas as portas para conseguir algum contrato que me leve até aí, nem que seja por um dia. Consegui, afinal, um trabalho em Seul. Vou dentro de algumas semanas. De lá prossigo até Tóquio, para ver você. Mesmo que esse chefe da Yakuza com quem você anda, como me disseram meus espiões, me mate a tiros. São sintomas de estar apaixonado?
- É, acho que são. Ainda bem, bom menino. Pensava que, depois de tanto tempo, você tivesse se esquecido de mim. Foi isso que o seu colega Toledano disse? Que estou com um chefe da máfia?
Deu uma risada, delicada com semelhante credencial. Mas, quase imediatamente, mudou de assunto e falou de um jeitinho carinhoso:
- Fico contente por você vir. Nós não nos vemos muito, mas eu sempre penso em você. Quer saber por quê? Porque é o único amigo que me resta.
- Eu não sou nem nunca serei seu amigo. Ainda não percebeu? Sou seu amante, seu namorado, a pessoa que desde pequeno é doido pela chilenita, pela guerrilheira, pela esposa do funcionário, a do criador de cavalos, a amante do gângster. O coisinha à-toa que só vive para desejar você e pensar em você. Em Tóquio não quero ficar lembrando de nada. Quero ter você nos meus braços, beijar, cheirar, morder você, fazer amor.
Riu de novo, agora com mais vontade.
- Ainda faz amor? - perguntou. - Ótimo, ainda bem. Ninguém tornou a me dizer essas coisas desde a última vez que nos vimos. Vai me dizer muitas, quando vier, Ricardito? Vamos, diga outra agora, como exemplo.
- Nas noites de lua cheia vou latir para o céu vendo a sua carinha retratada lá em cima. Agora mesmo, daria os dez anos de vida que me restam para me ver refletido no fundo dos seus olhinhos cor de mel escuro.
Estava rindo, divertida, mas de repente me interrompeu, assustada:
- Tenho de desligar.
Ouvi o clique do aparelho. Não consegui mais fechar os olhos, tomado por uma mistura de alegria e inquietação que me deixou acordado até as sete da manhã, hora que costumava me levantar para preparar meu desjejum de costume - um café puro e uma torrada com mel - quando não ia tomá-lo no balcão de um bar vizinho, na avennue de Trouville.
Trecho do livro Travessuras da menina má (pág. 133)
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